
No universo dos Fundos de Investimento Imobiliários (FIIs) no Brasil, existem poucas histórias tão intrigantes e extremas quanto a do CTXT11 (Centro Têxtil Internacional). De um lado, temos um fundo que negocia com um desconto patrimonial absurdo, com uma relação Preço sobre Valor Patrimonial (P/VP) de apenas 0,31 a 0,35. Do outro, nos deparamos com o maior pesadelo de qualquer investidor de tijolo: uma vacância física de exatos 100%.
O que acontece quando o único imóvel de um fundo fica completamente vazio? Vale a pena comprar o patrimônio de um gigante imobiliário por quase um terço do seu valor contábil real, ou estamos diante de uma “armadilha de valor”?
Neste artigo, vamos dissecar a realidade do CTXT11, os bastidores da vacância do Edifício ITM, os riscos ocultos e as perspectivas para o futuro deste ativo.
1. O “Gigante Vazio”: Por que o Edifício ITM está 100% desocupado?
O Edifício ITM, localizado na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo, é o único imóvel físico gerador de renda do CTXT11. Trata-se de um megacomplexo com uma Área Bruta Locável (ABL) monumental de 45.450 m² (da qual o fundo possui 75%).
Historicamente, o empreendimento abrigou operações robustas, mas em maio de 2021 o cenário mudou drasticamente: o antigo locatário âncora, oCTXT11, que ocupava cerca de 17.500 m² do complexo, desmobilizou completamente as suas operações no local.
A Disputa Judicial por Trás da Saída
A saída do banco não foi apenas uma decisão comercial de rotina. Ela foi marcada por um complexo imbróglio trabalhista. O Sindicato dos Bancários de São Paulo moveu ações coletivas pleiteando o pagamento de adicional de periculosidade para os funcionários que trabalhavam na parte interna do ITM. O motivo? O armazenamento de líquidos inflamáveis (geradores alimentados a óleo diesel) nas áreas internas do prédio. O caso arrastou-se nos tribunais por anos até que, em junho de 2024, a Justiça do Trabalho finalmente homologou um acordo coletivo bilionário entre o Itaú e os trabalhadores.
Sem o Itaú, a receita imobiliária do fundo foi a zero. E, sem receita imobiliária, a administradora Rio Bravo Investimentos emitiu um aviso em agosto de 2026 oficializando que não haverá distribuição de rendimentos aos cotistas no semestre corrente.

2. A Estratégia de Reocupação: O Plano de “Turnaround” da Rio Bravo
Para tirar o Edifício ITM da inércia, a Rio Bravo traçou uma estratégia comercial focada em atrair locatários de grande porte, definindo como prioridade demandas de área acima de 8.000 m².
Como o imóvel possui excelente localização em São Paulo, o complexo foi reposicionado comercialmente para atender a múltiplos segmentos que demandam grandes metragens lineares, incluindo:
- Lajes Corporativas Tradicionais e Setor Administrativo;
- Contact Centers;
- Logística de Última Milha (Last Mile), aproveitando a proximidade com as marginais e grandes centros de consumo da capital paulista.
Embora a gestora relate a existência de consultas e propostas em fase preliminar de negociação, até o momento não houve a assinatura de nenhum contrato de locação de longo prazo.
O Uso Criativo do Espaço Vazio
Enquanto os grandes inquilinos corporativos não chegam, a administradora tem adotado soluções criativas para reduzir os custos operacionais do prédio e gerar alguma receita pontual. Nos últimos meses, o Edifício ITM foi transformado em um polo de locação temporária, servindo de cenário de gravação para comerciais de TV, séries de streaming e filmes de cinema.
3. A Saúde Financeira e o Risco de R$ 24,8 Milhões com o Fisco
Se o fundo está sem inquilinos e acumulando prejuízos trimestrais (que somaram negativos R$ 2,22 milhões no trimestre encerrado em junho de 2026), como ele se mantém de pé?
A resposta curta é: baixa dívida e chamadas de capital. O nível de endividamento financeiro do fundo é extremamente baixo (representando apenas 1,54% do seu ativo total). O passivo do CTXT11 é puramente operacional (como taxas de administração a pagar e outras contas a pagar do dia a dia). Para arcar com esses custos de conservação do imóvel sem queimar o caixa mínimo de liquidez, o fundo realizou recentemente a sua 6ª emissão de cotas via chamadas de capital, levantando um montante total de R$ 6,25 milhões junto a investidores profissionais.
A Grande Sombra: Risco Tributário Multimilionário
No entanto, o maior risco para o fundo não está na falta de inquilinos, mas sim em uma disputa fiscal de peso. Em junho de 2022, o CTXT11 foi autuado pela Receita Federal, que cobra uma fatura de R$ 24,8 milhões em tributos, juros e multas.
A tese da Receita Federal é de que o fundo deve ser tributado como pessoa jurídica. De acordo com a Lei 9.779/99, um FII perde a sua isenção tributária se aplicar recursos em um empreendimento que tenha como incorporador, construtor ou sócio um cotista que detenha mais de 25% das cotas do fundo. Para o fisco, o CTXT11 se enquadra nessa situação.
A Rio Bravo contesta veementemente a autuação na Justiça. A defesa do fundo argumenta que o cotista relevante não atuou nessas posições e que a própria criação do fundo e inauguração do ITM ocorreram antes de a lei entrar em vigor. Contudo, se o desfecho judicial for desfavorável ao fundo, o valor cobrado representa mais de 25% de todo o patrimônio líquido atual do CTXT11 (de R$ 96,5 milhões) — uma pancada severa no bolso de qualquer investidor.
4. O Dilema do Investidor: Comprar, Manter ou Vender?
A relação P/VP de 0,31 (ou seja, pagar R$ 5,00 por um patrimônio que vale contabilmente R$ 15,53 ou mais por cota) é o principal chamariz do fundo. Mas será que vale o risco?
A resposta depende exclusivamente do perfil e estômago de cada investidor:
- Venda (ou Evitar a Entrada): Recomendado para perfis conservadores e moderados. O fundo tem rendimento atual de 0%, enfrenta baixíssima liquidez diária no mercado secundário (com volume médio diário de míseros R$ 373,00 nos últimos meses, o que gera sérias dificuldades para quem tenta vender suas cotas) e carrega um processo fiscal de R$ 24,8 milhões nas costas.
- Manutenção: Para quem já possui as cotas com preços médios altos e não quer realizar o prejuízo histórico no mercado de capitais. A recente injeção de R$ 6,25 milhões da chamada de capital oferece oxigênio operacional ao caixa do fundo para aguardar novas locações no médio prazo.
- Compra Especulativa (Turnaround): Para perfis extremamente agressivos. A tese baseia-se em comprar “tijolo físico em São Paulo” a preço de banana. Se a Rio Bravo concretizar uma grande locação de logística ou escritórios para o ITM, as cotas e os dividendos devem experimentar uma forte e rápida recuperação de mercado.

Todas as informações contidas neste blog post foram extraídas e auditadas diretamente com base nos relatórios gerenciais e fatos relevantes do fundo emitidos até agosto de 2026.
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